Falando sobre a morte

Olá, leitores lindos! Tudo bem? Espero que sim.

Hoje vim falar de um assunto que, originalmente, pode soar mórbido, mas fiquem um pouco comigo, sim? Não é tão ruim quanto parece.

Dizem por aí que uma das poucas certezas que temos na vida é de que vamos morrer. E eu concordo com isso. Ninguém fica pra semente, afinal. Todos vamos partir desta terra um dia. É algo que eu, pessoalmente, encaro até com uma certa tranquilidade, talvez por motivos que não cabem aqui no momento (quem sabe um dia eu compartilho tudo?). 

Devido a algumas situações da vida, eu tenho pensado bastante sobre a morte no momento. Não a minha, eu vou bem, obrigada, e pretendo viver até os cem enchendo o saco de todo mundo ao redor. Vocês foram avisados. Mas uma pessoa da família está daquele jeito – a gente não sabe até quando vai. Nesses casos, pode ir mês que vem ou durar anos, mas estamos naquele momento de incerteza. Vamos seguindo a vida como dá e apenas esperando. É o que nos resta fazer.

Saindo do particular para o geral, eu penso bastante sobre como a nossa cultura se relaciona com a morte – e outras também. Acho que é o resultado de ter uma conhecida que é agente funerária – você acaba falando mais sobre o tema do que a maioria das pessoas (onde eu acho esses amigos?). Além da amiguinha que trabalha com funerais, também assisto de vez em quando ao canal Ask a Mortician, no YouTube. A dona do canal, Caitlin Doughty, tem uma funerária ligada ao movimento “death positivity”.

O movimento basicamente tenta tirar o estigma da morte e de tudo o que se segue, e, talvez incidentalmente, aproximar a morte do que era antes na maioria das culturas.

Atualmente, quando perdemos alguém, é tudo muito… deixa eu pensar um pouco na palavra. Sanitizado? Industrializado? São palavras bem ruins, mas é impessoal. Acho que vai ter que ficar com essa palavra.

Não que a gente não sofra e não sinta, isso, creio, nunca vai mudar enquanto formos humanos. Mas a morte se tornou uma experiência muito menos envolvida.

Antigamente – ou nem tão antigamente assim, historicamente -, a maioria das pessoas terminava seus dias em casa, sob os cuidados de um parente ou vários deles. Quando isso acontecia, havia um rito a ser seguido. 

Como eu penso e falo melhor com exemplos, vamos ao caso da minha avó materna. Ela faleceu quando eu tinha 15 anos – ou seja, 20 anos atrás. Não é tanto tempo assim (e velha é sua mãe!). Quando ela faleceu – em casa -, eu não estava lá. Estava na casa da minha tia, que não era muito longe. Acordei com o som de fogos de artifício – que eram usados junto ao sino, porque o som se espalhava pela cidade no silêncio que é uma cidade pequena às duas da manhã. Não sei se hoje em dia ainda se usa, a cidade cresceu muito.

Pouco tempo depois que eu acordei, a tia que estava com a avó naquela noite chegou em casa pra nos avisar do que tinha acontecido. Como acharam que nós, ‘crianças’, estávamos dormindo, nos deixaram dormir o resto da noite e nos contaram de manhã. Só eu sei como passei o resto da noite. Quando acordei, tudo já estava em movimento. Amigos tinham sido avisados, a sala tinha sido arrumada pro velório – em casa mesmo, e não no cemitério – e as pessoas estavam começando a chegar. 

E chegou MUITA gente. Veio gente de tão longe que quase dez horas da noite ainda tinha gente chegando. Gente que eu conhecia, gente que eu nunca tinha visto, gente que eu não conhecia mas que me conhecia, porque tinha me visto bebezinha. Gente que tinha sido ajudada pelos meus avós de alguma forma. Antigos alunos do meu avô, que foi professor. Muita gente, um calor humano enorme. No enterro – o cemitério da cidade é bem longe da casa, e fica elevado, num terreno de onde se vê a praia – todos nós nos sentimos acolhidos. Através do borrão que fica na sua mente quando você perde alguém, ainda lembro do carinho e cuidado de tantas pessoas maravilhosas. Depois que voltamos do enterro, sentamos e ficamos ouvindo as pessoas falarem das lembranças que tinham. De como eles não podiam deixar de vir. Alguns de tão longe, outros de perto. Foi algo muito humano. Muito pessoal.

Isso foi há um bom tempo, e aconteceu numa cidade do interior baiano, mas é mais ou menos isso. É retomar a morte como um rito, como algo próximo. É dar às pessoas próximas o tempo de processar o que aconteceu, e de estar envolvidas. De não assinar um pedaço de papel e deixar seu ente querido aos cuidados de estranhos na última vez que veremos seu corpo. 

Depois da minha avó, eu perdi outras pessoas. Tias, tios, o avô paterno. Todos eles tiveram o tipo de enterro que é comum hoje. Não nego que seja mais prático, e até menos uma preocupação para a família. Mas parece que falta alguma coisa. Parece que o último capítulo da história não foi escrito.

Eu ainda não sei direito o que pensar. Um lado compreende a necessidade de uma maneira mais prática de lidar com a morte. Ela é uma realidade, assim como o fato de que todas as outras pessoas – as que ficam – têm vidas corridas. O outro lado sente falta de ter um momento de parar tudo. De reflexão. De despedida com a lembrança da pessoa querida ali. E depois deixar ir, porque está na hora.

Pessoalmente, eu me recuperei bem mais rápido no caso mais envolvido. Creio que seja isso que o movimento death positivity quer trazer de volta. A sensação de que a pessoa teve uma despedida como devido. Uma espécie de primeiro passo do luto feito de forma mais ativa. Não sei. É algo em que a gente não gosta de pensar – nem a nossa morte, nem a dos outros. Mas é uma reflexão que acabo fazendo de vez em quando, especialmente nesses momentos da vida.

Mas acho que já falei demais, não? Então, é sua vez de falar, leitor. Tem alguma experiência a dividir? Concordar, discordar, ou qualquer coisa entre os dois extremos? Fala comigo nos comentários!

Beijinhos, e até o próximo post! (Menos mórbido, espero)

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